quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Ano Novo


Há quem diga que um novo ano não muda nada.
Que é apenas mais uma etapa, os doze meses que recomeçam, os novos cabelos brancos que brotam na cabeça, mais um punhado de marquinhas no canto dos olhos, a mudança da folha no calendário. Que os anos passam apenas porque precisam passar, porque o tempo passa, porque a vida passa, porque tudo passa. Será?
[...]
Claro que nada de fenomenal acontece só porque o ano mudou. Mas algo dentro da gente muda (não muda?). É como se fosse uma esperança que cresce a cada dia. Uma vontade de fazer tudo dar certo (não é à toa que surgem mil listinhas de resoluções nesta época). É um xeque-mate da vida: faz agora ou agora. A gente se sacode quando termina um ano. É um papo sério com você mesmo: e aí, fez o que precisava ser feito? Adiou para o ano que vem? Senta aqui e vamos resolver essa lenga-lenga já! 

As pessoas, tão sofridas e carentes, precisam de algo para se sentirem vivas. E um novo ano traz isso. Renova a fé, faz com que os sonhos nasçam, cresçam e se reproduzam, faz com que a gente faça um balanço sincero de tudo que aconteceu ao longo dos anos. É um momento de reflexão, de pensar a fundo sobre o significado da vida. Eu sei que devíamos fazer isso mais vezes, mas a partida de um ano e a chegada de outro é um momento bastante propício e convidativo. Além disso, é melhor que essa reflexão aconteça uma vez por ano do que nunca, né? Por isso, desejo que você se renove, se chacoalhe, se encha de esperança, fé e a certeza de que tudo pode dar certo. Só depende de você.
(Clarissa Côrrea)

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013



Como é difícil acordar e ver que você partiu... Como vai ser difícil aceitar que tiraram você de mim, como vai ser difícil perceber que não está mais entre nós. 


Teus abraços me confortavam tanto, teu sorriso maroto me dava tanta paz, tuas  brincadeiras, os bordões que nos faziam rir e repetí-los infindavelmente, seu coração puro sem nenhuma maldade que sempre arrumava uma palavra bonita pra desculpar os erros alheios, a vida simples mas feliz... 

E Papai do Céu insistiu em levar você de nós, deixando um vazio imenso, um nó no coração... 
Foi com a senhora que eu aprendi tantas coisas, foi com a senhora que eu passei momentos tão lindos que me deixaram lembranças tão boas, mas que machucam tanto quando recordadas...
O coração aperta em saber que nunca mais vou poder receber um beijo teu, que nunca mais beberemos um "crush" e nem dançaremos mais um "tininã".
Dói muito saber que te perdi, machuca demais não ter mais a senhora entre a gente . 
A senhora foi a melhor pessoa desse mundo! A melhor vó e a melhor madrinha que eu poderia ter! Viveu uma vida digna que eu prometo seguir como exemplo pro resto da minha! 
Daí de cima, eu sei que continuará olhando por nós, iluminando nossas vidas porque o que a senhora nos deixou, jamais será esquecido. Tenho certeza que a senhora está aí no céu, juntinho dos seus dois filhos e que um dia a gente voltará a se encontrar. E eu vou poder abraçá-la e beijá-la de novo, muitas e muitas vezes.
Eu vou te amar eternamente vózinha e saiba que a senhora está viva aqui dentro de mim, no lugarzinho mais especial que eu sempre guardei pra você!
Vá em paz!
✩ 31/12/1937
† 04/12/2013

terça-feira, 26 de novembro de 2013

A arrogância segundo os medíocres

“Adorei o seu sapato”, disse uma amiga para mim certa vez.
“Legal, né? Eu comprei em uma feira de artesanato na Colômbia, achei super legal também”, eu respondi, de fato empolgada porque eu também adorava o sapato. Foi o suficiente para causar reticências  quase visíveis nela e no namorado e, se não fosse chato demais, eles teriam dado uma risadinha e rolariam os olhos um para o outro, como quem diz “que metida”. Mas para meia-entendedora que sou, o “ah…” que ela respondeu bastou.
Incrível é que posso afirmar com toda convicção que, se tivesse comprado aquele sapato em um camelô da 25 de março, eu responderia com a mesma empolgação “Legal, né? Achei lá na 25!”. Só que aí sim eu teria uma reação positiva, porque comprar na 25 “pode”.
Experiências como essa fazem com que eu mantenha minhas viagens em 13 países, minha fluência em francês e meus conhecimentos sobre temas do meu interesse (linguística, mitologia, gastronomia etc) praticamente para mim mesma e, em doses homeopáticas, comente entre meu restrito círculo familiar e de amigos (aquele que a gente conta nos dedos das mãos).
Essa censura intelectual me deixa irritada. Isso porque a mediocridade faz com que muitos torçam o nariz para tudo aquilo que não conhecem, mas que socialmente é considerado algo de um nível de cultura e poder aquisitivo superior. E assim você vira um arrogante. Te repudiam pelo simples fato de você mencionar algo que tem uma tarja invisível de “coisa de gente fresca”.
Não importa que ele pague R$ 30 mil em um carro zero, enquanto você dirige um carro de mais 15 anos e viaja durante um mês a cada dois anos para o exterior gastando R$ 5 mil (dinheiro que você, que não quer um carro zero, juntou com o seu trabalho enquanto ele pagava parcelas de mil reais ao mês). Não importa que você conheça uma palavra em outra língua que expressa muito melhor o que você quer falar. Você não pode mencioná-la de jeito nenhum! Mas ele escreve errado o português, troca “c” por “ç”, “s” por “z” e tudo bem.
Não pode falar que não gosta de novela ou de Big Brother, senão você é chato. Não pode fazer referência a livro nenhum, ou falar que foi em um concerto de música clássica, ou você é esnobe. Não ouso sequer mencionar meus amigos estrangeiros, correndo o risco de apedrejamento.
Pagar R$200 em uma aula de francês não pode. Mas pagar mais em uma academia, sem problemas. Se eu como aspargos e queijo brie, sou “chique”. Mas se gasto os mesmos R$ 20 (que compra os dois ingredientes citados) em um lanche do Mc Donald’s, aí tudo bem. Se desembolso R$100 em uma roupa ou acessório que gosto muito, sou uma riquinha consumista. Mas gastar R$100 no salão de cabeleireiro do bairro pra ter alguém refazendo sua chapinha é considerado normal. Gastar de R$30 a R$50 em vinho (seco, ainda por cima) é um absurdo. Mas R$80 em um abadá, ou em cerveja ruim na balada, ou em uma festa open bar… Tranquilo!
Meu ponto é que as pessoas que mais exercem essa censura intelectual têm acesso às mesmas coisas que eu, mas escolhem outro estilo de vida. Que pode ser até mais caro do que o meu, mas que não tem a pecha de coisa de gente arrogante.
O dicionário Aulete define a palavra “arrogância” da seguinte forma:
1. Ação ou resultado de atribui a si mesmo prerrogativa(s), direito(s), qualidade(s) etc.
2. Qualidade de arrogante, de quem se pretende superior ou melhor e o manifesta em atitudes de desprezo aos outros, de empáfia, de insolência etc.
3. Atitude, comportamento prepotente de quem se considera superior em relação aos outros; INSOLÊNCIA: “…e atirou-lhe com arrogância o troco sobre o balcão.” (José de Alencar, A viuvinha))
4. Ação desrespeitosa, que revela empáfia, insolência, desrespeito: Suas arrogâncias ultrapassam todo limite.
Pois bem. Ser arrogante é, então, atribuir-se qualidades que fazem com que você se ache superior aos outros. Mas a grande questão é que em nenhum momento coloco que meus interesses por línguas estrangeiras, viagens, design, gastronomia e cultura alternativa são mais relevantes do que outros. Ou pior: que me fazem alguém melhor que os outros. São os outros que se colocam abaixo de mim por não ter os mesmos interesses, taxar esses interesses de “coisa de grã-fino” (sim, ainda usam esse termo) e achar que vivem em um universo dos “pobres legais”, ainda que tenham o mesmo salário que eu. E o pior é que vivem, mesmo: no universo da pobreza de espírito.
(Carmen Guerreiro)

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Somos queijo gorgonzola


 
Estamos envelhecendo, estamos envelhecendo, estamos envelhecendo, só ouço isto. No táxi, no trânsito, no banco, s...ó me chamam de senhora. E as amigas falam “estamos envelhecendo”, como quem diz “estamos apodrecendo”. Não estou achando envelhecer esse horror todo. Até agora. Mas a pressão é grande. Então, outro dia, divertidamente, fiz uma analogia. O queijo Gorgonzola é um queijo que a maioria das pessoas que eu conheço gosta. Gosta na salada, no pão, com vinho tinto, vinho branco, é um queijo delicioso, de sabor e aroma peculiares, uma invenção italiana, tem status de iguaria com seu sabor sofisticadíssimo, incomparável, vende aos quilos nos supermercados do Leblon, é caro e é podre. É um queijo contaminado por fungos, só fica bom depois que mofa. É um queijo podre de chique. Para ficar gostoso tem que estar no ponto certo da deterioração da matéria. O que me possibilita afirmar que não é pelo fato de estar envelhecendo ou apodrecendo ou mofando que devo ser desvalorizada. Saibam: vou envelhecer até o ponto certo, como o Gorgonzola. Se Deus quiser, morrerei no ponto G da deterioração da matéria. Estou me tornando uma iguaria. Com vinho tinto sou deliciosa. Aos 50 sou uma mulher para paladares sofisticados. Não sou mais um queijo Minas Frescal, não sou mais uma Ricota, não sou um queijo amarelo qualquer para um lanche sem compromisso. Não sou para qualquer um, nem para qualquer um dou bola, agora tenho status, sou um queijo Gorgonzola.
(Maitê Proença)

terça-feira, 3 de setembro de 2013


 
Você conhece a fidelidade exibicionista, performática? A fidelidade do cachorrão? Vou explicar. 
Ele recebe um e-mail de uma conhecida e mostra para a namorada: – Viu como ela está me cantando? Olha o que vou responder...
Ele recebe uma ligação de uma amiga e conta para a namorada: – Viu como ela está me cantando? Olha o que respondi...
Ele recebe uma cutucada no Facebook e diz para a namorada: – Viu como ela está me cantando? Olha o que vou responder...
Ele recebe uma conversinha mole de uma estranha e logo entrega a cantada para a namorada.
Para que criar ciúme à toa? Transformar o ciúme em paranoia? 
Recusa e pronto. Não fala nada.
Fidelidade não se explica.
Fidelidade é invisível.
Fidelidade não é um favor.
Fidelidade não é um sacrifício.
Fidelidade é conviver com quem merece nossa exclusividade.
Não fique fazendo propaganda, parece que não é feliz assim.
Fidelidade é apenas uma forma de estar, não é uma forma de se exibir.
(Fabrício Carpinejar)

Meu coração em tuas mãos

 

 
– Escute meu coração! – ela me pediu.
Achei bobagem. Concluí que era coisa de criança, que adultos não deviam perder tempo ouvindo o coração.
Lembrava uma infantilidade, uma doçura extravagante.
Apesar de minha recusa, ela colocou minha palma esquerda sobre seu peito.
Fingi interesse até que a sequência virou música.
Fazia muito que não ouvia o coração com as mãos.
A mão é o ouvido perfeito.
A mão é uma concha natural; o oceano nos dedos.
Naquela hora, eu capturei o animal acelerado, seu silêncio enervado, seu desejo correndo para todas as veias da boca.
Espantei-me com a banalidade, a redescoberta do óbvio, como se estivesse aprendendo a amarrar os cadarços depois de velho.
Eu entendia o que ela estava sentindo melhor do que se falasse. Eu via que ela era real, e que ela era possível.
As palavras foram se tornando palpáveis. As frases cresciam em sentido. É como um coro que desmancha a solidão do pensamento.
Eu me apavorei com o meu desconhecimento do gesto. Por que não cumprimento as pessoas escutando seu coração?
Por que abandonei o hábito de pequeno? Por que reservei a mecânica ao médico?
Por que não me permitia ser despudoradamente emocional?
Ouvir o coração é como acompanhar os passos num piso de madeira. A gente identifica o familiar avançando pela casa, somos capazes de adivinhar o cômodo em que se encontra.
Ouvir o coração é como ouvir um órgão numa igreja, não um piano.
Há uma diferença de fundo. Os tubos de metal e de madeira ressoam como um segundo sino, em caixas de cinco andares.
Ecoa um planger épico, inevitável. O corpo já treme ao andar. 
O coração é mesmo um altar, mas quem ainda escuta?
Ouve-se o batimento da criança no ventre, os pais se emocionam com os primeiros sinais de vida de seus filhos, mas nos desacostumamos com o próprio ritmo. Ninguém nos inspira ou exige sua consulta.
Esquecemos de conferir o beijo, o abraço e o toque registrados lá, na linha cardíaca.
Com o coração dela em minhas mãos, compreendi qual o nosso medo. Quem escuta o coração não machuca o outro. Será responsável pela fraqueza. Sofrerá esperando o próximo suspiro do som. Estará consciente do intervalo de cada batida. Tem noção do que é ferir, e como dói ser sozinho.
 
(Fabrício Carpinejar)