"Se alguém te perguntar o que quiseste dizer com um poema, pergunta-lhe o que Deus quis dizer com este mundo..." (Mario Quintana)
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
Vai passar.
Não é um conselho alegre. Não me tranquiliza saber que terminaremos.
É uma advertência que me desespera. Não gostaria que passasse.
Eles não entendem que não sofro porque o amor acabou, sofro para não acabar o amor.
Sou contrário ao término, me oponho à nossa extinção.
Sou o único que resiste contra o fim de nossa história.
Eu não quero que passe. Mas sei que vai passar.
Sei que o amor vai morrer desidratado, faminto, por absoluta falta de cuidado.
Vai passar, infelizmente.
Tudo o que a gente construiu junto vai passar.
Tudo o que a gente idealizou, inventou e armou vai passar.
O lugar no peito que recebia seu rosto para dormir vai passar.
Nossos apelidos, nossos chamados, nossas piadas vão passar.
Por mais que acredite que seja impossível, irei namorar de novo, me apaixonar, casar e rir docemente sem culpa.
Vai passar.
Não superamos os medos, sucumbimos na segunda crise, desistimos de insistir.
Somos fracos, somos influenciáveis, somos tolos.
Foi muita incompetência de nossa parte.
Não seremos inesquecíveis.
Vai passar.
(Fabrício Carpinejar)
"Até abraçar desaprendemos. Ninguém mais abraça com vontade.
Com sinceridade de velório.
Com sinceridade de velório.
Odeio abraço falso, como aquele beijo de frígida, no qual a face bate na face e os lábios se transformam em beiço. Abraço tem que ter pegada, jeito, curva. Aperto suave, que pode virar colo. Alento tenso, que pode virar despedida. É pelo abraço que testo o caráter do outro. Não confio em quem logo dá tapinhas nas costas. A rapidez dos toques indica a maldade da criatura. Não sou porta para bater. Nem madeira para espantar azar.
Abraço com toquinho é hipócrita. É abraço de Judas. De traidor. O sujeito mal encosta a pele e quer se afastar. Pede espaço porque não suporta os pecados dos pensamentos.
Devemos fechar os olhos no abraço, respirar a roupa do abraçado, descobrir o perfume e a demora no banho. Abraço não pode ser rápido senão é empurrão. Requer cruzamento dos braços e uma demora do rosto no linho.
Abraço é para atravessar o nosso corpo. Ir para a margem oposta. Nadar para ilha e subir ao topo da pedra pela gratidão de sopro. Sou adepto a inventar abraços. Criar abraços. Inaugurar abraços. Realizar um dicionário de abraços. Um idioma de abraços.
O meu é o de cadeira de balanço. Giro nas pontas dos pés. Não largo, os primeiros minutos são para sufocar, os demais servem para o enlaçado se recuperar do susto. Não entendo onde terminará o abraço. Se a pessoa vai chorar ou vai rir.
Abraço é confissão. Dez minutinhos de sol e de liberdade."
(Fabrício Carpinejar)
É simples, mas complicado
Eu tenho verdadeiro horror de quem não me conhece (ou me conhece há cinco minutos) e me chama de amiga. Pior ainda é quem força uma intimidade inexistente. Respeito e prezo muito o meu espaço, a minha vida.
Tem gente que adora estar rodeada de gente. Eu também gosto. Mas prefiro estar rodeada de três ou quatro pessoas verdadeiras do que uma multidão que assim que eu virar as costas vai marcar uma reunião pra falar da minha roupa, do meu cabelo, do meu peso ou do meu casamento.
Já convivi com diversas pessoas e entendi que o que é meu tenho que guardar pra mim. Não é legal abrir o livro da vida pra quem senta no bar pra rir e tomar umas e outras. Não dá pra jurar de pés juntinhos que Fulana é muy amiga. Ainda mais quando a dita cuja tem no currículo o tópico adoro-me-reunir-com-as-amigas-pra-falar-dos-outros.
Sinceramente, detesto que metam o bedelho na minha vida. Lembro que quando era mais nova vivia colada no telefone. Fulana, o que eu faço? Fulaninha, ele me disse tal coisa, o que será que eu digo agora? Fulaninha, hoje fiz luzes no cabelo. Fulaninha, comprei um vestido novo. Fulaninha, vou viajar para Trancoso. Olha, eu aprendi que a gente deve é ficar quieta. E que nem tudo deve e precisa ser compartilhado.
Aprendi a pensar sozinha. A decidir as coisas por mim. E, principalmente, a não perguntar o que o outro acha da minha atitude. Deve ser por isso que alguns amigos não entenderam e se afastaram. Devem ter colocado a culpa no meu relacionamento. As pessoas gostam muito disso: Fulana mudou porque arrumou namorado. Na verdade, muitas vezes ocorre o seguinte: você mudou porque Fulana está namorando. Você mudou porque Fulana não te liga a toda hora pra perguntar que cor de esmalte passa na unha. Você mudou porque agora a Fulana não sai mais de quinta a domingo. Você mudou porque a Fulana arrumou um emprego, uma casa e uma vida. Você mudou porque agora acha que não tem mais nada em comum com a Fulana. As pessoas têm a triste mania de colocar a culpa em cima de quem começou um relacionamento. E isso é errado.
O amigo de verdade entende que agora você não tem mais tanto tempo livre. E que, independente disso, continua sendo amigo. Que você pode contar com ele. Que você pode usar e abusar do ombro dele. Que você pode seguir rindo e chorando com ele. Só que agora não são mais dois. Na verdade, nunca foram dois. É sempre um. É sempre a gente. É sempre eu. É sempre você.
Eu não vivo sozinha, preciso dos meus amigos. É bem verdade que hoje não sou grudada em ninguém, só em mim. Mas acho que isso a maturidade me trouxe. Não que eu seja a super adulta, muito pelo contrário: vou ser uma eterna criança. Mas não preciso mais do palpite, conselho e aprovação dos amigos pra tudo, coisa que um dia precisei. Hoje eu decido por mim. Se brigo com meu marido não corro para o telefone pedir um conselho para alguma amiga. Me resolvo com ele.
Acho a amizade entre os homens mais fácil. Não existe cobrança, não existe disputa, não existe cara feia, não existe nada disso. Eles se encontram, comem churrasco, tomam cerveja, jogam futebol e conversa fora. Dão gargalhadas e combinam de se ver no próximo mês. Já as mulheres estão sempre competindo. Cuidando as pontas duplas do cabelo da outra, cuidando um passo em falso, cuidando uma infelicidade escondida no olhar. Oi, ontem fui jantar com a Fulana. E aí? Ah, eu achei ela tão gorda, cheia de olheiras e ainda por cima usava uma bolsa surrada! Entende a diferença? Homem é mais sincero.
Um dia a gente acaba aprendendo que amizade não é grude. Já disse isso muitas vezes. Amizade não é grude. É você guardar pessoas especiais dentro do seu coração. É mostrar que a pessoa pode contar com você, não importa a hora nem o lugar, nem nada mais. É demonstrar o sentimento. E se o outro não der bola, tudo bem. Vai ver que não era amigo de verdade.
(Clarissa Corrêa)
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
"Hoje quero fazer como os bebês fazem:
mostrar as gengivas só para o que me for agradável.
Guardar as lágrimas para o que me for tragédia ou por demais bonito.
E ficar com qualquer outra cara em posição de descanso, qualquer expressão insípida,
menos com aquele ligeiro sorriso de antes, de sensatez estudada."
"Somos um território mais difícil de invadir, porque
levantamos muros, inseguros de nossas forças disfarçamos a fragilidade com
altas torres e ares imponentes. A maturidade me permite olhar com menos
ilusões, aceitar com menos sofrimento, entender com mais tranqüilidade, querer
com mais doçura.
Às vezes é preciso recolher-se"
(Lya Luft)
Somos como o ano velho, por isso tememos o novo.
O que estou fazendo com as minhas partes que ficaram
paradas?
O que você está fazendo com as suas?
O que estou fazendo para renovar o que há de antigo em mim,
tão arraigado que até já o suponho convicção?
O que você está fazendo com o que há de antigo em você, e
que talvez se exteriorize com a aparência de ser o mais moderno?
Somos como o ano velho. Como um montão de anos velhos,
acumulados. Vivemos a repetir o que já sabemos, o que já experimentamos.
Repetimos, também, sentimentos, opiniões, idéias, convicções. Somos uma
interminável repetição, com raras aberturas reais e verdadeiras para o novo do
qual cada instante está prenhe.
Somos muito mais memória do que aventura; mais eco que
descoberta; mais resíduo que suspensão. Somos indissolúveis, pétreos, papel
carbono, xerox existencial, copiadores automáticos de experiências já vividas,
fotografias em série das mesmas poses interiores. Somos um filme parado com a
ilusão de movimento. Só acreditamos no que conhecemos. Supomos que conhecer é
saber.
Viciados nas próprias crenças, somos dependentes das
próprias verdades, toxicômanos das próprias convicções. E como ocorre em todas
as dependências precisamos repetir as nossas verdades para que não caiamos no
pânico da dúvida, na ameaça da mutação.
Inventamos uma pacificação ilusória e grandiloqüente. Seu
nome: coerência. Coerência passa a ser grande virtude: "Fulano, conheço-o
há trinta anos. Sempre na mesma posição. Tipo coerente está ali!" E assim
saudamos a alguém que parou no tempo, que tão logo ganhou uma convicção,
fechou-se a todas as demais.
Fico a pensar no que ele perdeu de vida, alegria e
descoberta nesse tempo todo. Assim nas crenças, idéias, e também nos
sentimentos, vontades e hábitos. A rigor não sabemos o que estamos fazendo para
renovar o que há de antigo em nós. Em geral, nada.
Não me refiro ao que há de permanente, pois o ser humano é
feito de permanências e provisoriedades. As permanências (ligadas às essências)
devem ficar. Mas as provisoriedades que se tornaram antigas, paradas e
repetitivas e que ali estão remanescentes por nossa preguiça de examiná-las ou
por nossa incapacidade (ou medo) de removê-las, estas precisam ser revistas,
checadas, postas em discussão, em debate e arejamento.
Assim vejo o Ano Novo. Como a esperança dessa renovação, que
tem um nome: criatividade. Criar é manter a vida viva. Criar é ganhar da morte.
Morte é tudo o que deixou de ser criado. Criatividade, é pois, um conceito
imbrincado no de vida. Não há como separar os dois conceitos. Vida é criação e
criação é vida. Só a criatividade nos dará uma possibilidade de solução para
cada desafio do novo. As soluções jamais se repetem. Nós é que nos repetimos
por medo, comodismo ou burrice.
Adoramos repetir, tememos renovar, por isso, tanto sofremos.
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